"'Cosmic Love' was a joke title, but it stuck. We were working really hard on a song and just trying to make this shit piano part work, and all of a sudden I hit on one note, and I’d got it". (Florence Welch)

quinta-feira, setembro 04, 2014

- Celeste Império -

Burgundy Shoes by Patty Griffin on Grooveshark

Eu realmente não sei bem como me sinto ao esperar pelo ônibus num Sonntag* tão quente, aberto e ensolarado que parece querer homenagear o próprio nome. Enquanto vejo o horizonte ondular no calor impiedoso, minha mente se abre devagar para as faíscas cintilantes dançando à sombra do meu coração. Pergunto-me se desejo mesmo me deixar encantar pela sua beleza fugaz.
Ainda indecisa, a condução chega. Vou de cara limpa, cores opacas, batom escuro. Minhas olheiras denunciam o cansaço e penso que fiz mal ao deixar meus óculos escuros para trás. Mas ele me surpreende dizendo que estou linda. Linda, linda, linda, ele ecoa. Eu viro para o lado rindo, vendo o sol.
...
O caminho é longo, vamos ao som de uma playlist sem sentido, que me move os lábios ao som do que ouço. Eu recito as letras sem som, observando o sol, enquanto ele brinca volta e meia com os meus fios de cabelo indomáveis, inflamados, maleáveis.
Alguns versos parecem conversar diretamente comigo, aconselhando-me. Dando me força. Mas eu ainda não tenho certeza se sei bem o que estou fazendo. Receio o estrago dessa chama cálida que parece fluir pelo banco onde estamos sentados, ouvindo o ruído do motor misturado a baderna do trânsito. Receio o tamanho real desse conforto que ele me traz só de estar ao meu lado, lutando contra a vontade de segurar minha mão.
...
Mas basta chegarmos ao destino para que eu me sinta em casa, rindo, falando bobagens, intimidando. Esqueço onde estou, o que penso que deveria fazer. Eu me perco no bem estar do calor que ele me oferece. E eu queimo sem saber, feito o sol nos meus cabelos.
Vamos às brasas.
Afogueados.
Crestados.
Acalentados.
Brilhantes.
...
E no refúgio dos seus braços eu penso e penso e penso. E tenho vontade de sorrir, de chorar, de cantar. Eu canto versos que ele talvez não entenda, porque no fundo, ainda receio dizê-los. Receio eu, escalda-lo com meus estilhaços. Receio machucá-lo ao invés de ampará-lo.
Por isso eu penso. E canto. E rio. E o recebo assim, sem dizer nada demais. Sem esperar demais. Agradecida pelos elogios singelos. Comovida com suas digitais no meu rosto, seu nariz nos meus cabelos, seus braços a me envolver.
Certa de que encontrei um sol particular.
Um corpo celeste orbitando ao meu redor.
Iluminando minha escuridão.
Aos poucos.
...
Então eu finalmente me decido. Ou ainda, eu percebo que não sinto falta do frio ou das trevas. Que não tenho porque fugir da luz. Então na próxima vez, eu vou calçar feliz meu famoso e amado allstar vermelho. E em homenagem ao dia, colocarei meu vestido florido, e deixarei que ele segure minha mão.
Quer ele saiba o que isso realmente significa ou não.

Shelhass
Baseada em Burgundy Shoes por Patty Griffin e fatos reais.

*do alemão: domingo, ou ao pé da letra, dia do sol.

segunda-feira, agosto 25, 2014

- Garota dos olhos cintilantes -

How It Ends by DeVotchKa on Grooveshark

(Para Denise)

A música começa, e ela anda quase que no mesmo ritmo. Esse som é um som que ela jamais conseguiu identificar. Algo como uma sanfona misturada com uma gaita (de fole, quem sabe?). E faz parte da canção que ela não cansa de ouvir e ele não perde a oportunidade de colocar para tocar.
Então ela caminha. Vai passando pela porta de vidro e sendo saudada por alguns poucos sorrisos. Ela sorri de volta, pondo um pé em frente ao outro, amassando a grama que vem logo depois. Seu rosto vira em direção ao sol e seus olhos demoram a se acostumar com a luminosidade colorida da manhã. Círculos furta-cor dançam a sua frente e se misturam ao sorriso um pouco torto de quem a observa lá na frente, lá no final do seu caminho.
Ela conhece esse sorriso. Assim como os fios meio marrons meio ruivos que escondem parte do rosto do dono desse mesmo sorriso. Assim como as linhas que se formam ao redor dos olhos escuros de quem sorri esse sorriso conhecido, estampado em cada memória engraçada em sua mente. Estampado em seus sonhos coloridos em tinta óleo, sobre estradas abertas e crianças sonolentas.
Alguém se aproxima dela ansiosa, um pouco feliz e um pouco aborrecida, coloca algo em sua mão e lhe diz algo que soa como algo que ela deveria entender, mas não consegue. Tudo o que ela ouve é a batida das baquetas vindo da caixa de som.
Ainda andando e sorrindo, ela olha para o que foi posto em suas mãos e alguma coisa para de imediato em seu peito. E o mundo fica borrado, aquoso, pelo que parece ser a eternidade. E nesse momento suspenso, eterno enquanto existe, ela abaixa a cabeça, em reverência à todos aqueles cujas vidas foram seladas pelo pequeno objeto tremendo em seus dedos nervosos.
Dois passos depois, ela levanta o rosto, o mundo ainda ligeiramente borrado, colorido, luminoso, tal qual em seus sonhos. Ela fecha uma das mãos e a coloca no peito, ainda sorrindo, ainda andando, ainda olhando em direção ao sorriso torto ao fim da caminhada.
E a cada passo, enquanto a brisa passa, ela se despede das palavras cortantes, dos momentos de dor. Eles se desfazem no vento, passando através das fitas coloridas penduradas em seu braço, das bênçãos que agora preenchem os espaços antes abertos em sua alma.
E em seu coração, tudo se completa, se faz verdade. As crianças dos cabelos escuros e brilhantes, os caminhos de terra batida, os sonhos furta-cor, o sorriso ruivo, tudo. E ela deixa seus olhos marejados abertos, prontos para receber o que ela pediu em cada noite, em cada um de seus devaneios multicoloridos. Pois ela não precisa de chuvas de pétalas ou tapetes ou harpas.
Ela sabe. Ela simplesmente sabe que não importa se são violinos ou violoncelos na canção, se não há ninguém a acompanhando de braços dados, se o que ela veste é quase creme. Ela sabe o que esse momento significa e não faria absolutamente nada de diferente. Desde as poucas pessoas, até o rosto quase sem maquiagem.
Nesse momento basta saber como tudo termina. E quando ele termina, tudo começa.

Shelhass
Baseada em How it Ends por Devotchka.