Indícios

Levanto e acendo as luzes. Começo a tirar as roupas do canto onde estavam e passo a organizá-las, mas não sei bem se separo por cores, tamanho ou uso (casual, esporte e assim por diante). Minhas mãos e uma parte da minha cabeça se ocupam com isso, mas sei que só estou arrumando meu armário tamanha madrugada porque não consigo dormir e as sombras do meu quarto me fazem lembrar do que se esconde nas esquinas do meu coração. Mas não estou certa se é algo que consigo resolver... e quando há muito a fazer por dentro, começo por fora.
Há muito mesmo o que fazer. Meias sem pares, calcinhas com elásticos frouxos e camisas com buracos que eu jamais percebi – deveria jogar fora? Não sei. São tão confortáveis. 
Faço uma pilha disso para decidir depois. Há também fronhas e lençóis e algumas toalhas bem feias que mereciam virar pano de chão. E outra pilha (roupas que não cabem mais). E mais uma pilha (nunca usei/usarei). E já é de manhã. 
Abro a janela pra sentir os primeiros raios do dia. Sento no canto observando as sacolas com os itens separados enquanto o vento passa curioso pelas cortinas, correndo pelo espaço como se trouxesse novos ares para o meu armário agora organizado. Penso brevemente em alguma coisa relacionada com feng shui e agradeço qualquer boa sorte que possa vir em meu caminho. 
Tomo banho e um café ao som de Continuum
Pausa para os riffs de guitarra. 
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Resolvo levar minha cachorrinha para um passeio matinal. O barulho dos carros se mistura ao som dos pássaros barulhentos das árvores da praça e dos passos apressados dos atletas amadores treinando. No meio do caminho, pets se encontram, se cheiram, e por fim se estranham e não se dão bem. Encontramos novamente o mesmo chow-chow caramelo com nome de personagem de anime, guiado pelo tutor conversador cujo nome sempre esqueço. O tutor, um sujeito interessante e bonito demais pra ficar puxando papo com mulheres desconhecidas na rua, faz com que eu me sinta muito consciente de como estou nesse momento (olheiras e o cabelo todo arrepiado). 
Voltamos para casa bem contentes. A cachorra cansada e aquecida com o exercício e eu grata pelo flerte, mas tranquila em ter rejeitado mais um convite para uma água de coco. “Numa próxima vez” eu sempre digo. E sei que esse dia está demorando, mas como tantas outras coisas na minha vida, estou deixando numa pilha para ver depois. Quando eu estiver bem. Quando eu tiver espaço sobrando e novos ares puderem entrar. 

shelhass, escrita original em 2022 
Baseada na música In Repair por John Mayer e situações reais.

*Continuum é o título de um dos discos do Mayer

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