cinzas
Fico te olhando dormir por um tempo. Me faz lembrar das vezes que te carreguei do sofá pra cama ou que tive que tirar os livros que dormistes por cima. Não resisto a vontade de te beijar... em nome dos velhos tempos. Acabo te acordando e tu me olhas de volta sonolenta e confusa. Ajeito teu cabelo pensando no quão linda você ainda parece de manhã e não consigo controlar o desejo de sentir o cheiro da tua pele. Tu me devolves todos os gestos e toques e enquanto rolamos pelo colchão dançando nesse nosso velho ritmo ouço na tua respiração uma espécie de desespero que eu também reconheço e mesmo te segurando tão perto de mim não consigo te sentir como antes.
Deslizo a mão pelo teu rosto, teu corpo, te desenhando na memória e acendendo sinais luminosos nos teus olhos que eu reconheço de outros momentos e que vão ficar marcados em mim exatamente como naquela primeira vez. Te aperto involuntariamente tentando segurar as lembranças invasivas, um misto de raiva e mágoa e em resposta te sinto me arranhar nas costas. Meio surpreso, te olho nos olhos novamente e percebo que interpretastes errado o meu gesto. Você me aperta mais ainda procurando resposta pra essa pergunta que ficou no ar quando te acordei e, envergonhado, te giro sentindo teu cabelo roçar pelo peito, me deixando confuso. Mas os ruídos abafados da tua voz vão atravessando a minha mente. Dá pra sentir o coração pulsando em algum lugar. E a gente treme junto quase na mesma hora. Num compasso que a gente descobriu e nunca mais desaprendeu.
Respiro fundo tentando me recuperar, tentando me preparar. Meio tonto, quase aéreo, sinto as molas afundando enquanto tento levantar e você se remexe ao meu lado, botando a mão no meu braço, não sei se pra me ajudar ou me segurar. O toque quase arde e você sente também.
E de novo a gente cai no erro de rir. Mesmo sabendo que depois de todas as tentativas, já não tem mais volta – não importa o que eu senti ou o que sonhastes. Você encosta a cabeça quente no meu ombro, suor escorrendo no calor abafado do quarto, e eu sei que você ainda tá tentando entender o que isso tudo significa ao invés de aceitar que a gente segue errando e rodando no mesmo lugar.
shelhass, escrita original em setembro, 2025
Baseada na música Slow dancing in a burning room por John Mayer
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