affaire
Pelo canto do olho eu noto uma mensagem surgir na tela do celular. Avisando que chegou. Me pede pra descer - não tem ninguém na portaria. Abro a porta e o ruído do tráfego engole por inteiro a voz de Mitski falando sobre a entrega de almas em pactos noturnos, e o sol do fim da tarde reflete das janelas do prédio defronte. Desço rápido esperando que ninguém apareça. Que ninguém nos veja. Subimos as escadas, um distante do outro, e ouço sua voz reclamar alguma coisa numa voz cansada…
shelhass
Tira os sapatos enquanto perco a expressão que faz devido à contraluz que desenha os ombros dele se mexendo. Depois aponta com a cabeça para um dos cantos do apartamento e eu aceno negativamente, confirmando que estamos a sós hoje. Descalço, ele se aproxima digitando alguma coisa no celular e me pede um beijo. Segurando na minha cintura meio nervoso, me puxa pra perto e de alguma forma os nossos óculos também se encostam interrompendo o momento.
Me pede para usar o banheiro e enquanto ele fecha a porta sinto minha barriga se contrair num espasmo incomum, como se as osgas albinas na parede da sala estivessem andando pelo meu abdômen e tenho vontade de apertá-lo pra ver se é real mesmo. Mas ao invés disso eu me pego andando até ele no ritmo compassado da música que toca agora enquanto o vejo me dar um olhar divertido, meio surpreso. Me aproximo puxando suas mãos enquanto canto os versos que sei de cor: once more to see you…
Nos balançamos juntos, rodando no mesmo lugar, enquanto eu continuo cantando com o rosto colado no dele (ou quase, já que é mais alto) e imitando a canção; encosto os lábios perto da sua orelha e roço o nariz pelo pescoço suado com cheiro de fumaça de cigarro. Sinto uma de suas mãos deslizar pra dentro dos meus shorts e minha voz tremula mais ainda já que não canto bem nem quando estou concentrada.
Me pergunta quem está cantando e eu digo o nome. Ele não entende e pergunta “quem?” empurrando minha roupa pra baixo. Eu repito o nome adicionando: – Mas tu não deves saber quem é. Muito queer coded pra homem hétero. Ele ri, empurrando meu cabelo de lado e diz contra minha pele eriçada: – Ah, foi por isso que tu me perguntaste se eu era bi?! Mas eu posso aprender, posso fazer de tudo.
Damos risada da proposta mentirosa, mas isso não importa pra nós agora que outras coisas gritam urgentemente.
Baseada na música Once More to See You por Mitski
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