Declives

O frio vinha de dentro para fora, vibrando na carne e na coca-cola que ela tentou engolir para disfarçar os lábios que tremiam sob o peso das acusações feitas quase sem querer, misturados a um sorriso blasé e um amargor que o faziam parecer ainda mais velho por trás da barba amanhecida e mais infeliz com os óculos escuros na manhã cinza.
Um gole.
Ela era consciente de sua vida vazia e simplória, escassa de pessoas, de palavras e carinho, o que não lhe dava o direito de descrevê-la tão cruamente, abrindo-lhe o peito com a violência de suas adagas cheias de expectativas, expondo a pulsação de sua solidão.
Um gole.
Ele não pretendera magoá-la, mas a maneira como seus lábios repuxaram-se nos cantos indicava que acabara conseguindo exatamente isso. Limitou-se então em escutar o burburinho das conversas ao redor, inclinando a cabeça de lado. Ele não percebeu que desse modo parecia estar avaliando-a.
Uma fungada. Um copo à mesa.
Enquanto ela mexia os lábios lhe ocorreu que tudo entre eles tratava-se de verdades óbvias que escorregavam da língua feito mentiras venenosas; que mesmo sarando, deixam marcas. Eles eram tão iguais, que ela tinha uma necessidade estranha de fazê-lo duvidar disto. “Eu não tenho tempo para você agora, sinto muito”.
Uma cadeira arrasta.
Ela foi equilibrando-se nos saltos, que pisavam firme em seu peito aberto pela frieza do adeus, atravessando-lhe o coração inerte, sem nem mesmo olhar para trás. Lembrou-se de quando ela o encontrou e sentiu um pulsar agonizante, praticamente implorando que não se esforçasse; o máximo que ele poderia fazer dali em diante era cair aos pedaços.
Uma porta abre.
Ele bebeu dos restos da coca-cola, desejando que o gosto de sua boca (com ou sem veneno) ainda não tivesse ido e não percebeu que o frio não vinha do líquido, mas do agridoce das lembranças que ainda teimava em trazer à tona.
Uma porta fecha delicadamente.
Já na esquina, com os braços em volta do corpo, protegendo-se da dor terebrante, ela mal podia respirar sem sua presença insípida, vendo a avenida se dissolver nas lágrimas que teimavam em encher-lhe os olhos. O ar comprimia seu peito maltratado e com os olhos ardendo ela seguiu na mesma ladeira da qual ele se joga. Seu próprio caminho.

shelhass
Baseada na música She Has No Time por Keane.

Comentários

bia de barros disse…
Deprê não é legal mesmo, assim como desculpas esfarrapadas - não ter tempo, onde já se viu? (falo da personagem...)

saudades, moça - tou cada vez mais usando e abusando dessas palavras que sangram só pra mostrar que ainda estou viva.

;*
Carlos Howes disse…
Ok, você escolheu uma trilha realmente de texto mais leve = Keane. E dentro disso, ficou ideal.

Eu fiquei foi com sede..hahaha.


Só não entendi teu comentário no meu blog, pq eu tinha dito que o Ryan "era". Quem dera que ele tivesse vivo, né? Mas ele o jeff estão nas canções..
Camila disse…
Amo Keane! <3

E amei o texto, você é otima em escrever com ou sem hemorragias.

Sabe... essa historia me lembrou uma certa epoca da minha vida...

Desde entao sigo meus Caminhos.


BeijOs querida

Ps. Mando bolo pra tu! ;*
Darshany L. disse…
quem é vivo sempre aparece né dona?
hahahaa

adorei seus paragrafos longos misturados com frases curtas de impacto.

:*
Mah Jardim disse…
Valeu a pena sim ler seu texto.
Somos duas sem tempo :D
Anônimo disse…
Foi exatamente assim que tbm resolvi seguir meu caminho.