relapsos
É domingo. Almoço de domingo. Abraços e beijos calorosos nos recebem na porta, ao longo do corredor, na cozinha, no quintal. Sou engolida pelo aroma de rosas e almíscar. Ouço pulseiras tilintarem umas nas outras. Me perguntam sobre filhos e tenho uma vontade enorme de chorar, mas me seguro e digo que ainda não é hora.
Faz três meses desde o aborto. Não tenho certeza se queria, ainda me sinto confusa com a decisão. Mas quando ele segurou na minha mão com olhos urgentes dizendo como isso atrapalharia a vida dele, ou melhor, a nossa, apenas aquiesci.
Noto as tapinhas na costa que ele recebe envoltas em parabéns. Penso nas noites que fiquei acordada ajudando. Dos gritos que nada tinham a ver comigo. Do soco na parede que eu mal reagi - só entendi muito depois... quando já não tinha mais com quem conversar e todos os meus planos encostados na escrivaninha esperando o dia que ele nos alcançaria e poderíamos finalmente caminhar juntos.
Logo no início ele jogou meu celular no chão. Exigiu saber onde eu estava. Olhei pra tela rachada sem acreditar na quantidade de mensagens e ligações perdidas. Mas como ele me pediu desculpas diversas vezes preocupado que algo tivesse me acontecido, eu perdoei.
E perdoei outras tantas vezes.
Como no dia que me deixou trancada dentro de casa e fingiu que não tinha percebido. De quando tentou me convencer que eu era uma pessoa amarga e horrível. Que ninguém jamais me amaria, de novo. De quando criticou meus amigos e os chamou de elitistas, perguntando se eu também era assim. E no encontro que terminou em discussão porque eu insistia em fazer ele se sentir burro. De quando acordei no meio da noite com ele em cima de mim. E eu perdoei. Me enganando com os milhões de eu-te-amo ouvidos. Até ficar rendida e nenhum deles mais fazer sentindo. E ele continuou repetindo, repetindo, repetindo.
shelhass
Baseada na música Re-offender por Travis
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