"'Cosmic Love' was a joke title, but it stuck. We were working really hard on a song and just trying to make this shit piano part work, and all of a sudden I hit on one note, and I’d got it". (Florence Welch)

segunda-feira, agosto 25, 2014

- Garota dos olhos cintilantes -

How It Ends by DeVotchKa on Grooveshark

(Para Denise)

A música começa, e ela anda quase que no mesmo ritmo. Esse som é um som que ela jamais conseguiu identificar. Algo como uma sanfona misturada com uma gaita (de fole, quem sabe?). E faz parte da canção que ela não cansa de ouvir e ele não perde a oportunidade de colocar para tocar.
Então ela caminha. Vai passando pela porta de vidro e sendo saudada por alguns poucos sorrisos. Ela sorri de volta, pondo um pé em frente ao outro, amassando a grama que vem logo depois. Seu rosto vira em direção ao sol e seus olhos demoram a se acostumar com a luminosidade colorida da manhã. Círculos furta-cor dançam a sua frente e se misturam ao sorriso um pouco torto de quem a observa lá na frente, lá no final do seu caminho.
Ela conhece esse sorriso. Assim como os fios meio marrons meio ruivos que escondem parte do rosto do dono desse mesmo sorriso. Assim como as linhas que se formam ao redor dos olhos escuros de quem sorri esse sorriso conhecido, estampado em cada memória engraçada em sua mente. Estampado em seus sonhos coloridos em tinta óleo, sobre estradas abertas e crianças sonolentas.
Alguém se aproxima dela ansiosa, um pouco feliz e um pouco aborrecida, coloca algo em sua mão e lhe diz algo que soa como algo que ela deveria entender, mas não consegue. Tudo o que ela ouve é a batida das baquetas vindo da caixa de som.
Ainda andando e sorrindo, ela olha para o que foi posto em suas mãos e alguma coisa para de imediato em seu peito. E o mundo fica borrado, aquoso, pelo que parece ser a eternidade. E nesse momento suspenso, eterno enquanto existe, ela abaixa a cabeça, em reverência à todos aqueles cujas vidas foram seladas pelo pequeno objeto tremendo em seus dedos nervosos.
Dois passos depois, ela levanta o rosto, o mundo ainda ligeiramente borrado, colorido, luminoso, tal qual em seus sonhos. Ela fecha uma das mãos e a coloca no peito, ainda sorrindo, ainda andando, ainda olhando em direção ao sorriso torto ao fim da caminhada.
E a cada passo, enquanto a brisa passa, ela se despede das palavras cortantes, dos momentos de dor. Eles se desfazem no vento, passando através das fitas coloridas penduradas em seu braço, das bênçãos que agora preenchem os espaços antes abertos em sua alma.
E em seu coração, tudo se completa, se faz verdade. As crianças dos cabelos escuros e brilhantes, os caminhos de terra batida, os sonhos furta-cor, o sorriso ruivo, tudo. E ela deixa seus olhos marejados abertos, prontos para receber o que ela pediu em cada noite, em cada um de seus devaneios multicoloridos. Pois ela não precisa de chuvas de pétalas ou tapetes ou harpas.
Ela sabe. Ela simplesmente sabe que não importa se são violinos ou violoncelos na canção, se não há ninguém a acompanhando de braços dados, se o que ela veste é quase creme. Ela sabe o que esse momento significa e não faria absolutamente nada de diferente. Desde as poucas pessoas, até o rosto quase sem maquiagem.
Nesse momento basta saber como tudo termina. E quando ele termina, tudo começa.

Shelhass
Baseada em How it Ends por Devotchka.

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